segunda-feira, 26 de julho de 2010

CANÁRIO DA TERRA

         
O canário da terra tem esse nome porque, na época do Brasil-colônia, canários eram trazidos das Ilhas Canárias e de Portugal, para serem vendidos aqui. Eram os canários belgas e campainhas que, aleatoriamente, eram chamados de canários do reino, porque vinham do reino - Portugal. Em contra posição, fora encontrada no Brasil uma ave semelhante, passariforme, fringilídea, tendo esta recebido a designação "sicalis floveola brasiliensis", que é o nosso CANÁRIO DA TERRA.
          Ave belísssima; parda quando filhote (no seu primeiro ano de vida) e, depois, na primeira troca de pena, reveste-se de um amarelo-esverdeado e, as penas que cobrem a cabeça, de um amarelo-avermelhado-vivo. Por essas características, é também chamado de cabeça-de-fogo, ou chapim que advém de chapéu.
          Tornou-se pássaro de gaiola e viveiro, apreciado por seu canto agudo e majestoso. Emite dois tipos de canto: quando está tranquilo, sossegado, seu canto é o "dobrado"; quando ativo, supervisionando seu território, usa o trinado ardoroso, para manter seus concorrentes distantes. Seus ninhos são feitos de capim macio, geralmente forrados com os fios de clinas, deixados em cercas de arrame e árvores pelos animais quando se coçam. Os lugares  preferidos para criar os seus filhotes são os ocos de morões, ou os beirais das casas, ranchões e estábulos. Por isso mesmo, sempre próximo do homem, bem como dos animais nas cocheiras, nos chiqueirões.
          Durante o inverno reunem-se em bandos, com a presença dos filhotes gerados no verão. No início de setembro e começo da primavera, os casais se separam para o preparo dos ninhos, estabelecendo ali os limites dos seus territórios. Dentro desse domínio, os machos, cuja cor é de um amarelo mais intenso, desferem o seu canto desde a madrugada até o entardecer. No fim do dia, é comum alçar um vôo até uma grande altura, em repetidos gorjeios, retornando a seguir à uma das árvores de sua jurisdição.
          Em cada região brasileira, o canto desse pássaro tem suas peculiaridades de estilo. Em alguns rincões, o canto poderá ser mais longo ou mais abreviado, com ou sem repiquetes no final. Os entendidos valorizam tanto o porte físico dessa ave, quanto o estilo do seu canto e, bem assim, a maneira como reage, nas "demandas", diante de outros machos por perto.
         O canário da terra está sendo considerado em extinção e, de fato, tem desaparecido dos campos, sítios e fazendas, sobretudo, dos currais e hortas, fazendo parte da vida do agricultor, do homem  campesino. Não tanto porque são aprisionados em gaiolas, mas, principalmente, porque foram e são mortos (irracionalmente);  
no passado por meio dos inseticidas contendo BHC e, mais recentemente, com as aplicações nas lavouras dos chamados "defensivos agrícolas"- herbicidas, inseticidas e fungicidas.
          O canário da terra é pássaro sementívoro, assim como o pintassilgo, coleirinha, caboclinho, patativa, que também correm risco de extinção. No interior do Est.de S.Paulo, onde morrávamos, o canário da terra podia ser visto em bandos de 30 a 40 exemplares, especialmente os filhotes das últimas ninhadas. Mas, logo nas primeiras aplicações de venenos nas lavouras, nos deparávamos, estupefatos, com 10,12 canarinhos mortos, em consequência dos herbicidas aplicados por usineiros em seus canaviais.
          Há, nos nossos dias, uma fachada de ação governamental prendendo alguns traficantes de animais silvestres, quando, na verdade, esse não é o problema crucial. O cerne da questão está na derrubada das matas, nas queimadas e, sobretudo, na aplicação de desfolhiantes às árvores, herbicidas, tornando as sementes (alimento das aves) tóxicas, matando os animais. No caso do canário da terra, especificamente, a proliferação da espécie é tão eficiente que, cada casal gera em torno de 15 a 18 filhotes por ano. Todavia, os venenos agrícolas matam bandos inteiros desses inofensivos, belos e canoros passarinhos.
          Que saudade nos resta de ver e ouvir, nos píncaros dos eucalíptos e jatobás, o canto do canário da terra, tão brasileiro quanto nós que aqui nascemos! Seu canto é mavioso e pode ser ouvido, até mesmo antes do raiar do dia, bem de manhã, nas árvores frandosas que lhe serviram de pousada. Que saudade!!!

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